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Renda fixa a fundo: CDI, IPCA+ e marcação a mercado

"Renda fixa" é um nome que engana duas vezes: nem tudo é fixo, e as diferenças entre os títulos importam muito. Este artigo organiza o território: os três indexadores que classificam praticamente tudo, o mecanismo de preços que assusta os desavisados — a marcação a mercado — e os critérios de escolha entre eles.

O mapa: três indexadores

1. Pós-fixados (CDI/Selic). Rendem a taxa do dia, dia após dia. O CDI é a taxa dos empréstimos de um dia entre bancos e anda historicamente colado na Selic (tipicamente ~0,1 ponto abaixo). Quando você lê "CDB a 105% do CDI", significa: o que o CDI render, vezes 1,05. Como acompanham os juros correntes, esses títulos quase não oscilam de preço — são o instrumento natural da reserva e do dinheiro de curto prazo.

2. Prefixados. Taxa travada na compra: 12% a.a. contratados são 12% a.a. no vencimento, aconteça o que acontecer com a Selic. O risco é de custo de oportunidade e de inflação: se os juros sobem, você fica preso a uma taxa que ficou pequena; se a inflação dispara, seu ganho real derrete. Prefixado é, na essência, uma opinião sobre o futuro dos juros.

3. IPCA+ (híbridos). Inflação + taxa fixa (ex.: IPCA + 6% a.a.). O único formato que garante ganho real se levado ao vencimento — por isso é a espinha dorsal de objetivos longos e aposentadoria. A taxa fixa acima do IPCA é o "juro real", número que resume o prêmio que o país paga para tomar seu dinheiro emprestado por anos.

Marcação a mercado: o preço de sair antes

Quem compra um prefixado ou IPCA+ e leva até o vencimento recebe exatamente o contratado — isso nunca muda. A marcação a mercado responde outra pergunta: quanto vale o título se você vendê-lo hoje? E a resposta depende das taxas de agora, não das da sua compra.

A lógica é uma gangorra. Você comprou um título a 12% a.a.; meses depois, títulos novos idênticos pagam 14%. Ninguém paga preço cheio pelo seu papel de 12% podendo comprar a 14% — para vender, você dá desconto, e esse desconto aparece como saldo negativo no aplicativo. O inverso também vale: juros caindo para 10% tornam seu 12% disputado, e ele passa a valer mais do que você pagou.

Em uma frase: quem fica até o vencimento recebe o combinado; quem sai no meio recebe o preço do dia — para melhor ou para pior. Vermelho na tela não é prejuízo; prejuízo é vender no vermelho.

Prazo é alavanca: o conceito de duration

Um título que vence em 1 ano trava a taxa por pouco tempo — mudanças de juros mexem pouco no preço. Um IPCA+ de 2045 trava a taxa por décadas — cada ponto percentual de variação nos juros desloca o preço violentamente. Essa sensibilidade é a duration: quanto maior, mais o título balança. Daí o paradoxo aparente: os títulos mais "conservadores" no vencimento (públicos, longos, de inflação) são os mais voláteis no caminho. Ordem de grandeza para calibrar a intuição: em um título com duration próxima de 10 anos, uma alta de 1 ponto percentual na taxa derruba o preço em torno de 10%; uma queda de 1 ponto o eleva em proporção semelhante.

Crédito: quem deve para você importa

Indexador é metade da análise; a outra metade é o emissor. A escada de risco de crédito no Brasil: títulos públicos (menor risco) → bancos grandes → bancos médios/pequenos (com FGC até R$ 250 mil por CPF por instituição) → empresas (debêntures, CRIs e CRAs, sem FGC). Prêmios maiores existem para compensar riscos maiores — quando um papel bancário paga 130% do CDI, a pergunta certa não é "que ótimo?", e sim "por que precisam pagar tanto?". Dentro do limite do FGC o risco bancário é mitigado; acima dele, ou em crédito corporativo, a análise do emissor deixa de ser opcional.

Tributação, na prática

CDBs, Tesouro e debêntures comuns seguem a tabela regressiva de IR sobre o rendimento (22,5% até 180 dias, caindo até 15% acima de 720 dias). LCIs, LCAs e debêntures incentivadas são isentas de IR para pessoa física — o que exige comparar taxas líquidas: uma LCI a 90% do CDI equivale aproximadamente a um CDB a ~106% do CDI para prazos acima de 2 anos. Fazer essa conta antes de escolher é o hábito que separa o investidor intermediário do iniciante.

Montando o quebra-cabeça

Dominada a renda fixa, os próximos degraus da trilha tratam de terceirizar gestão (fundos e previdência), de dar os primeiros passos em renda variável e FIIs e, por fim, de juntar tudo em uma carteira coerente com o seu perfil.